domingo, 10 de abril de 2011

RESQUÍCIOS DO PASSADO
Marlene Caminhoto Nassa


Tentei afogar mágoas
Do meu passado
Lançando-as à noite no mar
Mas o que não é dele
Ele devolve sem tardar...

Vi os prantos e as tristezas
Espalhados pela areia
Junto com restos de galhos
E plantas mortas à mancheia

Pedaços de embarcação
Que por certo perdeu o norte
E encontrou nos rochedos
A morte
Compunham o espólio
Da minha triste sorte

Teria que me desfazer
Dos resquícios do passado
Mas eles eram tão vastos
Bem aqui ao lado
Ocupavam a praia inteira
E não havia outra maneira

Teria que esperar
A maré cheia chegar
E para outra praia distante
Esses resquícios levar...
MENSAGEM
Marlene Caminhoto Nassa

Ouve minha mensagem
Eu a envio por esta tarde triste
Entenda o que ela quer dizer
A vida emudeceu!
Tudo é frio...

Os homens não mais se comunicam
Em seus olhares.
As sarjetas sujas
Gritam a dor dos eternos pisares.
As paredes frias, cuspidas,
Emudecidas,
Expõem as suas feridas.

As árvores despem-se das folhas
Que num triste bailado
Caem de qualquer lado
Volteiam tontas ao vento
E morrem sozinhas
Aqui no relento

Esquecem das sombras que fizeram
Do perfume que exalaram
E das frutas que alimentaram

E nesse ciclo sem fim
Essas folhas secas
Lembram a mim...
MEMÓRIA EM MIM
Marlene Caminhoto Nassa


VOCÊ JÁ ESCREVEU
SUA MEMÓRIA
FEITO POESIA
EM MIM.
FOI-SE EMBORA SEM LER...
DEIXOU OS VERSOS SEUS
GEMENDO... GEMENDO...
NOS OUVIDOS MEUS...
SEM MEDO DE VIVER
Marlene Caminhoto Nassa

Sem medo de ousar,
Sem medo de ser feliz!
Sem medo de investir
Sem medo de ser um aprendiz

Botar a cara pra apanhar
A bunda pra aparecer
O coração pra sonhar...
Ser velho,
Ser menino
Caminhar sem destino
Procurando se encontrar

Soltar as rédeas da paixão
E nunca se contentar
Buscar o âmago das entrelinhas
E só as nuvens pra se escorar

Amar
Gozar
Viver
Jogar
E entender
Que nesse jogo
Ou se morre
Ou se pega fogo!

Tudo pode acontecer
E só no calor desse fogo
Conseguir, realmente, viver!

sexta-feira, 8 de abril de 2011

IMAGINAÇÃO

Marlene C N





Se me recitares os Cânticos dos Cânticos

Do rei Salomão e do teu

E queres ser voyer do prazer solitário meu

Sacrílego és também e tanto quanto eu





Tua voz rouca de tesão me ensina

O que fazer no lugar do falo teu

Voltei ao meu tempo de menina

Com a bíblia molhada do porejo meu



Devemos transgredir, equacionar

A realidade com a minha e a tua vontade

Mesmo que transcorra em ficção

Faça me de tua palavra com suavidade

O que realizo agora com a mão...



Que teu verbo viril me possua

Deitada sobre os versos teus

Nua

Despidos de pudores e sem peias

Substitua logo a minha mão

E me faças

Tua



Gozemos nós dois nas teias

Dessa louca imaginação...

terça-feira, 5 de abril de 2011

GRAVIDEZ

Encontrei-te no final de um verso meu
Estavas tão desorientado... tão carente...
Que nada fiz além de ficar silente...
Dei-te os seios para que mamasses em mim

E ávido, faminto, sorvestes do meu leite.
E fostes ficando... ficando ... assim...
Te excitando...
Te excitando...

Enroscando nos meus versos com deleite
Desejando as minhas estrofes possuíres
E acariciando todas as minhas palavras
Docemente
Com ternura, tesão e alegria

Finalmente
Deixastes minha alma nua
Fizestes amor com minha rima
E hoje estou grávida da poesia tua!

Marlene Caminhoto Nassa
LIGAÇÕES
Marlene Caminhoto Nassa

Ligações do que?
De brisa?
Estendi os meus braços
E alcancei teus abraços
De nuvem...

Nossos corpos se colaram
Mas o que restou
Por tu seres de nuvem
Foi só chuva
De pranto doloroso

Gritado em trovões
De uma fria tempestade
De granizos
Depois...