terça-feira, 5 de julho de 2011

BOITATÁ
Marlene Caminhoto Nassa

Quero viver essa alegria
Participar dessa folia
E com voces duelar
Pular carneiro nas nuvens
E nos ventos rodopiar

Escutar na noite o lamento
De apaixonado sob o luar
Querendo o fim do tormento
E com sua amada reatar

Tecer num tear de estrelas
Redes para pescar o ar
Reter nos fios cintilantes
Todo brilho que amealhar

E com ele te fazer enfeite
Prender no teu dorso
E te deixar em deleite
Envolto nesse brilhar

E nas noites te ver
Pelos campos a voar
Iluminando qualquer clareira
Meu boitatá particular!
DE MÃOS DADAS
Marlene C.aminhoto Nassa

Minha paisagem é por inteiro!
Sem ovelhas nem pastores,
Mas com galinhas brancas no galinheiro,
O abacateiro...
Roupas coloridas no varal
O pé de amoras, o formigueiro...
Até o cheiro do quintal!

Tudo fica numa caixinha,
Bem ao lado da ladainha
Que minha mãe punha-se a rezar,
Lá no fundo da memória.

E quando eu quero recordar,
Abro, devagar, a caixinha,
E a menina que está lá dentro,
Vem correndo me buscar!
E nós saímos de mãos dadas,
Ela me ensina a temer nada,

E numa cúmplice parceria,
Ela me reconstrói a alegria,
Do pé descalço na enxurrada,
De olhar o arco íris
Logo depois da chuvarada!

E quando ela volta pra caixinha,
Que gracinha!
Bem velhinha!
Aí sou eu que começo a engatinhar!
DISFARCE
Marlene Caminhoto Nassa

Tu te suplantas
Nos disfarces
E nas mentiras
Que tentas
Aplicar em mim

Sabes que não sou idiota
Mas se comporta mesmo assim
Enganas a ti próprio
Não a mim

Lugar de palhaço
É no picadeiro
E de galo
É no poleiro

Estou muito cansada
De atitudes infantis
Cresça
Amadureça
Enfim

Quem sabe
Não haverá
Entre nós
Inevitável fim
É TARDE DEMAIS?
Marlene Caminhoto Nassa

Missão cumprida
Filhos criados
Encaminhados
Vontade
De recomeçar

Uma nova carreira
Uma nova vida
Um outro vivenciar
Sem nenhuma opressão

È até possível
Não ser compreendida
Sentir solidão

Ser agredida
Por expor
A ferida
Sem compaixão

Será que vale a pena
Sair de cena
Em plena atuação?

Não é
Tarde demais
Para sonhar
Para gostar de si
Querer se preservar?

Não é tarde demais
Para algum recomeço
Enfrentar o tropeço
Que o futuro poderá dar?

Não é tarde demais
Para se ter esperança
Sem viver de lembrança
Ruim de guardar?

Não é tarde demais
Para novamente
Amar?
EDREDOM
Marlene Caminhoto Nassa

Embaixo do edredom
Mãos em sintonia
Num mesmo tom
Esquentaram a noite fria
E entramos em ebulição

Com nosso corpo colado
O coração pulsando apressado
O pobre do edredom
Foi logo jogado de lado

Melhor do que qualquer
Cobertor
É ter uma relação
Com amor
CONSTELAÇÃO
Marlene Caminhoto Nassa
Lena Serena

Tudo o que mais quero agora
É que repouses tua boca em mim
Percorrendo meus caminhos assim

Que gota a gota pingue sem cessar
Teu sal e mel retemperando o desejo
E engula com teu beijo o meu pensar

Que te aposses de meus sonhos
E descubras meus mais ousados anseios
Explorando com tua boca os meus seios

Que sacies a tua e a minha fome
Pescando estrelas no céu da minha boca
E pouco a pouco tu me ponhas louca

Enquanto me possuis e gritas o meu nome
Vais dizendo que me ama
Trocando estrelas pela nossa boca

E uma constelação delas se derrama
Inteirinha em nossa cama...
AS DUAS LÍNGUAS
Marlene Caminhoto Nassa

Sua língua é sensual, com certeza,
Mas não se esqueça não
De sempre fazer a correção
Também da língua portuguesa

Dou o desconto pela empolgação
Pela intensidade da paixão
As duas línguas devem ser cuidadas com amor
Aquela que explora um corpo
E a outra que fala o que for...

A pessoa saborosa é aquela que sabe bem
Esgrimir a língua da boca
E a língua da pátria também...