domingo, 28 de agosto de 2011

Absinto e poesia
Marlene Caminhoto Nassa

No silêncio do meu quarto
Cesária Évora suave e delicada
Tua imagem
Refletida
No espelho
Do meu pensamento
É um maremoto
Que faz tremer
Meus vales
Montes, labirintos
Vibrações de ‘ais’
Que saem dos meus canais
Por onde tantas vezes navegastes
Saboreio o nosso Absinto
Agora numa taça azul
Aquele mesmo
Que, em muitos momentos,
Na tua boca bebi a esmo
Éramos doce explosão
Satélites que captavam
Até a mais curta onda
Misteriosa atração
Imãs naquele mar de sedução
Minhas mãos ainda molhadas
Do poema inacabado
Que procuravam por ti
Não resistem
E, sob a mesa,
Meus dedos te encontram
Agora de outro jeito que sabem
Banham-se no meio do mar
Do meu desejo
Onde sempre estás
A ondular...
O maremoto passa
Minhas águas se acalmam
Minha língua volta a se banhar
Em versos ao luar
Tomo mais um gole de Absinto...
Para ver se melhor te sinto...

E nas entrelinhas fico a te aguardar...
SABOR DO VINHO
Marlene Caminhoto Nassa


O vinho tinto nas papilas vai explodir
Milênios de anos de cultura nesse sabor e
Transformará tua boca em cálice aonde vou sentir
O amálgama mágico do vinho com o teu calor

Quero me embriagar desse vinho e de tesão
Com tua língua porejando em minha boca
O sabor intenso da uva e do seu chão
Entrelaçando com a minha feito louca

E nessa dança de línguas enroscadas
Transferes o teu sabor para mim
E através das nossas bocas coladas
Beberei o vinho com teu beijo assim...

sábado, 6 de agosto de 2011

DESLIZAMENTOS
Marlene Caminhoto Nassa



Suavemente tentando abrir
Teus dedos pelos botões deslizam
E aos poucos eles vão cedendo
E partes de meu corpo vão aparecendo

A blusa desliza desabotoada
Contornando a forma minha
E aos poucos amontoada
Aos teus pés ela se aninha

Deslizas agora tua língua
Pela extensão do corpo meu
Saboreando dele o meu gosto
E deixando nele o gosto teu

Deslizando no lençol de cetim
Nos encaixamos em côncavo convexo

Enquanto deslizas tua mão em mim
Aproveitamos o melhor do nosso sexo

quarta-feira, 27 de julho de 2011

FOSSA
Marlene Caminhoto Nassa

As pedras e os espinhos
Ao seguir por essa estrada bela
Dilaceram me aos pouquinhos
E vão me espalhando por ela

Meus pedaços vão ficando
Enquanto sigo caminhando
Espalhados pelo chão...
Minha voz rouca vai se tornando
E ninguém mais ouve, não.

Nessa estrada, é verdade,
Cada um com sua ocupação
Não tem tempo ou vontade
De me dar sua atenção

Sigo assim aos pedaços
Caindo em qualquer lugar
Tentando fazer laços
E com meus frágeis braços
Procurar até reter o luar...

Mas no fim do meu caminho
Sem ter mais nenhum pedacinho
Fico vazia e no escuro a chorar...
Lamentando e questionando
Se valeu a pena o meu caminhar...
DESEJOS
Marlene C Nassa

São tantos os desejos
Que eu poderia enumerar
Começando pelos sensuais
Até chegar aos espirituais

Desejar é também sonhar
È aguardar a realização
Daquilo que se põe a desejar

Desejo a precisão no ar
Do vôo das aves
O arrebatamento das ondas
No rochedo
O mergulho nos abissais do mar
Sem medo

Conhecer da alegria
O segredo
Desenhar nas nuvens
Com meu dedo

Resgatar a pureza
E a ingenuidade
Sem perder a verdade

Ter um farol e um porto
E viver à minha maneira

Possuir mundo
Sem fundo
Sem porteira
Amar sem barreira

sexta-feira, 8 de julho de 2011

CARNAVAL DA VIDA
Marlene Caminhoto Nassa

Eu não fui colombina
Nem você foi pierrot
Não existe a alegria
Mas foi só você quem mudou

Já brinquei no salão
Sozinha na multidão
Já chorei na cadência
Já rompi um cordão

Se eu não fui colombina
Nem você foi pierrot
Cadê meu coração?
Com quem é que ficou?

Se eu não fui colombina
E nem você pierrot
Por que hoje a tristeza
Em meu peito restou?

Se eu não fui colombina
E nem você pierrot
Do seu amor de fantasia
O que é que pra mim restou?

Só quarta feira
Só quarta feira de cinzas
Em minha alma ficou...
DE MÃOS VAZIAS
Marlene Caminhoto Nassa

Lá fora a chuva do verão alaga a cidade
E leva de roldão sonhos vidas ilusão
Aqui dentro do meu quarto, sem piedade,
De mãos vazias eu me sinto em prisão

Prisão na minha própria dúvida
Prisão na minha própria reflexão
Enclausurada nos desencantos da vida
Angustiada por não ver solução

Se a noite parece sonho pra alguém
Para mim não parece não
A inacreditável realidade também
Não nos oferece conforto ou perdão

A chuva que chora na vidraça, sem cessar
Pode parecer que de mim se compadece
Ilusão! Olhos de vidro não podem chorar
E mão vazia nada oferece...